sábado, 24 de outubro de 2015

Posso ajudar?

Há coisas que me tiram do sério e, definitivamente, comprar presentes em datas comemorativas é uma delas. Nessas ocasiões, as lojas estão sempre cheias, com um turbilhão de gente entrando e saindo, e os vendedores quase todos ansiosos por comissões de vendas.
Ao pisar o pé numa loja, logo se escuta um sonoro "posso ajudar?" de um vendedor que aparentemente brotou do chão ou que estava à espreita até o potencial comprador aparecer. É a sinalização de que foi dado início à caçada. A partir daí, o vendedor encarna em sua presa e tenta exaustivamente que ela leve algum item.
Observando esses vendedores afoitos, desenvolvi uma teoria na qual existem dois tipos deles. O primeiro, o que te segue a loja inteira, fazendo as vezes da sua sombra; o segundo, o que elogia qualquer produto que você pega e diz que o destinatário daquele presente irá adorá-lo -ainda que não o conheça nem saiba nada sobre ele. Infelizmente, na maioria das vezes que vou às compras, termino encontrando com um desses tipos.
Quando me deparo com essa desagradável abordagem, quase nunca consigo concluir a compra. Ou tenho a sorte de já saber exatamente o que quero e ir diretamente à prateleira, fugindo do vendedor, ou fico impaciente, agradeço ironicamente a ajuda e vou embora.
De uns tempos para cá, tenho pensado em uma alternativa  a esse conflito. Acho que começarei a comprar tudo pela internet. Melhor, além de fazer as compras online, posso criar minha própria marca de camisas. Já tenho duas estampas em mente: "Não, obrigado" e "Estou só olhando". Será que elas fariam sucesso nesse de fim de ano?


Caio Menezes

sábado, 25 de abril de 2015

O choro

Entrou às pressas na livraria sem olhar para ninguém. Procurou a mesa mais afastada e pediu somente um café, como de costume. Estava atrasado para entregar a tradução que prometeu ao editor, o que o deixou bastante impaciente.
Há quatro anos, desde a morte precoce de sua esposa, o seu convívio social se restringiu basicamente ao dono da livraria onde passava suas tardes e ao seu contato na editora. Solitário e inconsolável foi como ficou após perder a mulher que amava. Essa mudança em sua vida foi capaz de transformar um bom escritor que já emplacara um ou dois sucessos em um medíocre tradutor de best-sellers. “Me prostituo intelectualmente por míseros trocados”, queixava-se, deprimidamente, enquanto revisava a tradução.
Já não via grande propósito no cotidiano, considerando-o uma sequência de acontecimentos sem muita importância. Nada mais era assunto para um texto, ninguém mais lhe inspirava a contar nenhuma história. A motivação para escrever reduziu na medida em que se isolou afetivamente do mundo que o rodeava. Descobriu a duras penas que viver sem paixão é sobreviver.
Embora seu dia tenha começado como o habitual, apático e sem brilho, algo subitamente despertou-lhe a atenção. Do outro lado da livraria, ouviu o choro de uma jovem que observava os livros de uma estante. O caráter incomum daquele episódio foi responsável por conquistar seu interesse. Quem era aquela jovem e o que a motivara a chorar? Essas perguntas automaticamente martelaram na sua cabeça. Aproximou-se e fitou-a com atenção. Ela aparentava mais ou menos a idade de sua esposa ao falecer e trazia no olhar uma transbordante melancolia. Ao perceber seu observador, ela derrubou o livro no chão e foi embora, assustada. Quando o apanhou, ele viu que aquele era um exemplar do seu primeiro romance publicado.
Esse inusitado acontecimento foi seguido de um punhado de dúvidas sobre a misteriosa jovem e de como seu livro foi capaz de tocá-la. Isto lhe despertou novamente a vontade de escrever. Pensou que se sua literatura foi responsável por sensibilizar alguém, ela ainda poderia fazê-lo dar sentido à vida.
Passou a noite em claro. Esta e as seguintes, escrevendo um esboço de um livro. Ligou pro seu editor, avisou que voltara a escrever e que já tinha uma prévia do texto. Ao ter seu material lido, não foi poupado das críticas que lhe cabiam. Disseram-lhe que seu novo trabalho não trazia o necessário para fisgar o leitor, que seria uma publicação fadada ao fracasso. Novamente deprimido, teve que se manter como tradutor para sobreviver.
Continuou a passar suas tardes na livraria, isolado do mundo, entre tristezas e traduções. Então, num dia tão igual aos outros, novamente avistou a jovem olhando as estantes. Decidiu agradecê-la por reavivar, ainda que por pouco tempo, seu desejo de escrever. Respirou fundo, levantou desajeitadamente da cadeira e seguiu em sua direção. Ria, nervoso, sem saber exatamente o que e como dizer. Foi quando, finalmente, percebeu que o que faltava em seu novo texto era justamente aquilo de que também carecia sua vida: bons diálogos. 


Caio Menezes

sábado, 4 de abril de 2015

Já morreu, também.

Meu avô José sempre foi um grande contador de histórias. Aquele tipo empolgante de velhinho que viveu coisas demais e lembrava delas nos mínimos detalhes.
Desde pequeno, costumava visitá-lo toda semana. A cada encontro, minha expectativa de ouvir seus relatos era prontamente satisfeita com a vontade e a disposição dele de contá-los.
O gosto por coisas antigas era algo que partilhávamos. Algumas de suas histórias eram acompanhadas por registros igualmente velhos que atestavam sua veracidade: moedas, papéis, broches e outras tranqueiras que ele guardava em caixas no armário. Eu achava isso o máximo.
Imergir naquele mundo de conversas com ele era como ler um livro prosaico e informal, com um ágil narrador-personagem que estimulava a imaginação de seu espectador.
Saber que aquilo que ele me dizia realmente aconteceu era algo que me impressionava, já que muitos dos personagens eu nunca tinha visto pessoalmente, mas conhecia alguns de seus parentes mais novos.
Já no final de sua vida, com 102 anos, continuava a me contar sobre sua juventude, sobre como aprendeu a ler num sítio de interior, e sobre como foi seu casamento com minha avó -algumas de suas histórias mais vívidas. A cada narrativa, passada num tempo longínquo do qual só ele era sobrevivente, meu avô se referia a várias pessoas que eu nunca vi e murmurava "já morreu, também" ao citar seus nomes.
Hoje sou eu quem conta as histórias de meu avô. Lembrar delas me ajuda a reviver as agradáveis sensações que dividíamos. Agora sou eu que, vez ou outra, me pego murmurando "já morreu, também" quando falo dele.



Caio Menezes

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Piloto-automático

Hoje em dia, todos estão sempre muito ocupados. Vivem correndo contra o tempo, como se estivessem em débito com algo extremamente importante a ser feito e concentrados no depois. O ritmo acelerado da vida contemporânea deixa as pessoas numa rotação tão alta, que pouco se dão conta que não conhecem umas às outras.
Percebo isso ao analisar a superficialidade das relações humanas. Quando não restritas às redes sociais, as conversas basicamente se resumem à banalidade cotidiana -com pérolas de como o dia está quente, como o trânsito está irritante, como foi absurdo não anularem aquele gol impedido no jogo da última quarta-feira, por exemplo- ou ao chato e repetitivo papo de trabalho. É como se todos estivessem ligados em piloto-automático, não se aprofundando em nada do que se conversa, já que se tem outras prioridades.
Reflitamos. Você chega no seu ambiente de trabalho -ou de estudo- e se depara com as mesmas caras dia após dia. Quantas dessas pessoas você conhece a fundo? Quais os gostos de cada uma? Quais as suas visões de mundo e as suas pretensões de vida? Provavelmente, as respostas serão poucas, proporcionais às conversas que se teve.
Paradoxalmente, numa sociedade tão interconectada pelas redes sociais, as pessoas estão cada vez mais distantes, ainda que o feed do Facebook diga o contrário. Se a tecnologia e a globalização encurtaram as distâncias do mundo e aproximaram a coletividade, a correria automatizada do cotidiano afastou os indivíduos. Nesse ínterim, o ato de compartilhar deixou de ser algo real, isolando-se como instrumento de viralização na internet.
Seria interessante uma discussão sobre isso, um papo de bar, um cafezinho, ou algo do tipo. Se alguém topar, pode me mandar uma mensagem pelo Whatsapp. Quando puder, lerei. Pena que agora não posso conversar, estou atrasado e tenho que organizar as coisas da semana que vem. Fui!


Caio Menezes

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Meus pêsames

A capacidade de o ser humano trabalhar a linguagem verbal é algo formidável, que o difere dos outros animais. Racionais que somos, tentamos traduzir em palavras o que sentimos, o que pensamos -faço isto neste momento- para que possa ser captado pelos demais. 
Com o passar dos anos, a expressão linguística humana foi aprimorada, como podem evidenciar os vários idiomas difundidos no mundo. A língua portuguesa, por exemplo, é extremamente rica em verbetes e expressões, sendo deveras complexa. Curioso como algo tão sofisticado como a língua encontra algumas barreiras. Me atenho aqui à barreira da empatia, que me chama a atenção.
O paradoxo da empatia é difícil de ser resolvido. De um lado, é fácil demonstrarmos empatia num contexto positivo, onde o sentimento que se emana é a felicidade. Vibrar com a vitória do outro é algo contagiante, tranquilamente retratado por expressões alegres e com alto teor de veracidade. Por outro lado, há coisa mais complicada que demonstrarmos empatia com a perda alheia? Será que há algo mais piegas que simplesmente dizer "meus pêsames" ao vermos o sofrimento de um terceiro? Por mais que alguns troquem a expressão pelo equivalente "meus sentimentos" -não sei qual a pior- a frase parece que não carrega emoção. É evidente a dificuldade de se fazer verossímil a tradução verbal de um sofrimento compartilhado.
Procuro a causa desta barreira na incapacidade humana de lidar com as perdas e, principalmente, com a morte. Vejo como retrato de uma herança da sociedade ocidental, que tem dificuldade em encarar abertamente a morte e a interpretá-la como algo natural. Exemplo disso é o fato de quase não vermos pais discutindo com suas crianças o que significa morrer. A dificuldade que estes pais encontram é símbolo de seu próprio desconhecimento sobre o tema. Assim como com quase tudo que é desconhecido, teme-se a morte. 
Se a perda maior não é algo bem digerido pelas pessoas, a sensação desconfortável é repassada para os demais insucessos. Não sei ao certo se algum dia será possível resolver o paradoxo da empatia e tornar verossímeis as expressões solidárias à perda alheia. Creio que o melhor a fazer é substituir, neste caso, a linguagem. Em vez de falar, talvez seja melhor olhar e tocar, já que a expressão mais primitiva, às vezes, é quem melhor traduz o que sentimos.
Caso alguém partilhe deste meu devaneio e fique feliz com a identificação, pode usar toda a complexidade da língua para traduzir este sentimento. Caso fique triste com a dificuldade de enfrentar o paradoxo e queira mostrar-se empático, favor não me desejar "meus pêsames".


Caio Menezes

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Sábio Manuel Bandeira

Infelizmente, o resultado do primeiro turno seguiu a previsível linha das três últimas eleições presidenciais: passaram para o segundo turno os candidatos do PT e PSDB, mantendo a já conhecida polarização da disputa. Este fato, por si só, evidencia o quanto o cenário político brasileiro está carente de novas forças, com discursos atualizados, consistentes e plausíveis - pautados nas demandas sociais - e com a capacidade de atrair uma maior parcela do eleitorado.
Como já deu para entender, não considero Dilma e Aécio as melhores opções de voto. Pena que, a essa altura do campeonato, são as únicas que sobraram. Dessa forma, resta fazer uma análise racional e crítica - ainda que breve - do que cada candidato representa para, assim, decidir meu voto.
Mais que figuras individuais, Dilma e Aécio encarnam duas ideologias políticas diferentes. A primeira representa a tendência esquerdista focada em políticas sociais. O segundo, o conservadorismo ideológico e a tendência econômica neoliberal. Duas pontuações que parecem simplistas, mas que acarretam diferentes efeitos à sociedade. Constatação esta, fundamentada na avaliação do legado de cada partido enquanto governo.
A década de 1990 e o início dos anos 2000 foram marcados pela dominância tucana no cenário nacional, com dois mandatos seguidos de FHC. Capaz de mostrar o jeito psdbista de governar, esse período ficou conhecido pela tendência econômica neoliberal (famosa pelas privatizações), pela estagnação do sistema educacional público, pelos escândalos de corrupção não investigados e engavetados, pela alta taxa de desemprego, pelos apagões e pela incipiente política social, entre outras coisas.
Após a vitória de Lula sobre José Serra em 2002, o Brasil entrou numa nova fase, chamada genericamente de governo PT. Este período, que dura até o presente, ficou marcado pelo enfoque em políticas de inclusão social e de distribuição de renda, que foram capazes de melhorar a vida de milhões de pessoas. Essa melhora se deu, por exemplo, através da garantia de subsistência às famílias carentes e da ampliação a renda familiar - por meio do Bolsa-Família -, do aumento do valor real do salário mínimo e do poder de compra do cidadão médio, da ampliação do acesso de alunos oriundos de escolas públicas às universidades públicas (ainda que por medidas paliativas), e da criação de novas instituições públicas de ensino técnico e superior. Como não se vive somente de louros, o governo PT também deixa um legado negativo. Os escândalos de corrupção foram numerosos, a gestão em saúde pública foi ineficaz para diminuir os problemas existentes, a ampliação quantitativa do sistema público educacional não se deu conjuntamente com a qualitativa, as esperadas reformas política e tributária não ocorreram, a economia brasileira se mantém fundamentada no agronegócio e na comercialização de commodities, e as reprováveis alianças políticas para conseguir a maioria da bancada parlamentar foram prática usual. Para completar, ao separarmos o governo Lula do governo Dilma, percebemos que as conquistas concentram-se majoritariamente no primeiro, enquanto as deficiências foram dissolvidas nos dois governos.
Isto posto, vejo os governos PSDB e PT como falhos, mas com superioridade deste. Ainda que, por vezes, sombreadas pela face negativa da administração petista, as heranças deixadas por Lula e Dilma foram melhor distribuídas pelos diferentes setores da sociedade, enquanto a herança tucana se deu essencialmente à elite conservadora, historicamente dominante no Brasil. Esse alinhamento à elite, inclusive, pode ser visto através do tratamento diferenciado que cada grupo político recebe por meio da mídia e possui significado danoso ao acesso à informação, com prejuízo à confiabilidade desta. Vale ressaltar, ainda, que os grandes veículos de comunicação do país são propriedade de grupos da direita conservadora, o que acarreta em viés de parcialidade quando são mostradas competências adversárias.
Além da avaliação histórica nacional, o cenário mundial também é fator influente na disputa politico-ideológica brasileira. Há alguns anos, houve crescimento expressivo de uma onda ideológica conservadora que garantiu representatividade na França, na Alemanha e no Reino Unido. Este neoconservadorismo já adquiriu caráter continental na Europa e agora espalha-se pelo mundo. Discursos conservadores realizados na campanha eleitoral por mais de um candidato, mostram que, infelizmente, há campo fértil aqui no Brasil para esta praga se desenvolver.
A fim de evitar o retorno do PSDB à presidência - que considero um retrocesso, já que observo um saldo essencialmente negativo em seu legado - e de frear a investida neoconservadora, anular o voto não é suficiente. Ainda que longe do ideal, o voto em Dilma, agora, mostra-se necessário. É como diz o poema de Manuel Bandeira: não sendo possível tentar o pneumotórax, a única coisa a fazer é tocar um tango argentino.


Caio Menezes




Em tempo: 

Sou estudante de medicina e, portanto, sinto-me na obrigação de fazer uma análise mais detalhada da conjuntura atual da saúde pública. As medidas adotadas pelo governo Dilma, ao meu ver, foram ineficientes e inadequadas, por não melhorar qualitativamente a promoção de saúde e pelo caráter vertical de sua instituição. O programa Mais Médicos, carro-chefe da atual gestão em saúde, que aborda desde a importação de médicos do exterior para suprir a demanda da população até a criação de novas escolas médicas, não foi submetido a extensas análises conjuntas entre Ministério da Saúde e entidades médicas antes de sua implementação, o que seria adequado. Além disso, as diretrizes nacionais para os cursos de medicina foram revisadas e atualizadas de forma arbitrária, diferentemente do que ocorreu em 2002, quando houve discussões amplas em congressos de educação médica, por exemplo. Reformas esperadas, como a melhoria das condições de trabalho, a criação de um plano de carreira e a valorização do profissional médico, ficaram pendentes na administração atual. A fim de comparação, examino o enfoque que Aécio dá à saúde pública através de sua administração do estado de Minas Gerais. O que me salta aos olhos são as investigações de desvio de dinheiro da saúde, o não cumprimento dos acordos firmados e o não pagamento do piso nacional aos médicos desse estado na administração tucana. Com isso, vejo a gestão em saúde como um ponto crítico tanto para Dilma quanto para Aécio.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Crítica - Garota Exemplar (Gone Girl, 2014)

Garota Exemplar - tradução livre para Gone Girl - é o mais novo filme de David Fincher que chega aos cinemas neste outubro. Seguindo a inteligente linha de suspense policial já abordada em Se7en e em Zodíaco, Garota Exemplar não fica atrás quanto a prender a atenção do espectador.
Instigante desde o primeiro plano, o longa aborda o desaparecimento de Amy Dunne (Rosamund Pike) no dia de seu quinto aniversário de casamento com Nick (Ben Affleck). Logo após ter ciência do desaparecimento de sua esposa, Nick aciona a polícia, que, ao investigar o ocorrido, enxerga Nick como principal suspeito. A partir deste ponto, a narrativa desenvolve-se mostrando os esforços de Nick para provar sua inocência - auxiliado por sua irmã Margo - enquanto os indícios encontrados não corroboram sua versão da história.
Como de costume, David Fincher mostra-se um diretor extremamente competente, que dá ênfase ao cuidado estético e visual do filme. Através da alternância entre cortes rápidos e sequências longas, closes e planos abertos, a direção e montagem do filme são eficientes em contagiar o espectador com uma atmosfera de tensão e a produzir reviravoltas narrativas.
O roteiro e sua decupagem são consistentes ao criticarem, em diferentes níveis, a valorização das aparências na sociedade. No plano pessoal, a artificialidade é evidenciada pelo fato de o relacionamento de Nick e Amy se basear em uma projeção ideal do que cada um gostaria que fosse. No plano social, as críticas são observadas através de Amy - que representa ser um espelho da personagem literária criada por seus pais - e da atuação sensacionalista da mídia, que consegue audiência ao criar estereótipos e fazer juízo de valor destes, sem se preocupar com as consequências.
A linguagem cinematográfica expressa através do figurino e do design de produção é um dos pontos altos do filme. Em diversas ocasiões, são apresentadas formas geométricas retangulares tanto no cenário (nas janelas, nos móveis, na sala da delegacia) quanto no figurino (na estampa xadrez das roupas), trazendo à tona uma simbologia de aprisionamento. Nos momentos em que um personagem encontra-se em contexto desfavorável, há a repetição de tais formas. Além disso, a paleta de tons opacos que colore o interior da casa onde mora o casal protagonista passa a ideia de artificialidade de sua vida a dois, contrapondo-se ao jogo de cores vivas que é utilizado para compor o ambiente pessoal e acolhedor da casa de Margo.
Já rico em requisitos técnicos necessários para se fazer um grande filme, Garota Exemplar torna-se ainda mais atrativo para o espectador, ao trazer Ben Affleck e Rosamund Pike em atuações convincentes, compondo seus personagens como figuras psicologicamente complexas. É por esse conjunto de qualidades que, sem sombra de dúvidas, deve-se considerar Garota Exemplar um filme completo e um dos melhores de 2014.


Caio Menezes