sábado, 4 de abril de 2015

Já morreu, também.

Meu avô José sempre foi um grande contador de histórias. Aquele tipo empolgante de velhinho que viveu coisas demais e lembrava delas nos mínimos detalhes. 
Desde pequeno, costumava visitá-lo toda semana. A cada encontro, minha expectativa de ouvir seus relatos era prontamente satisfeita com a vontade e a disposição dele de contá-los. 
O gosto por coisas antigas era algo que partilhávamos. Algumas de suas histórias eram acompanhadas por registros igualmente velhos que atestavam sua veracidade: moedas, papéis, broches e outras tranqueiras que ele guardava em caixas no armário. Eu achava isso o máximo.
Imergir naquele mundo de conversas com ele era como ler um livro prosaico e informal, com um ágil narrador-personagem que estimulava a imaginação de seu espectador.
Saber que aquilo que ele me dizia realmente aconteceu era algo que me impressionava, já que muitos dos personagens eu nunca tinha visto pessoalmente, mas conhecia alguns de seus parentes mais novos.
Já no final de sua vida, com 102 anos, continuava a me contar sobre sua juventude, sobre como aprendeu a ler num sítio de interior, e sobre como foi seu casamento com minha avó -algumas de suas histórias mais vívidas. A cada narrativa, passada num tempo longínquo do qual só ele era sobrevivente, meu avô se referia a várias pessoas que eu nunca vi e murmurava "já morreu, também" ao citar seus nomes.
Hoje sou eu quem conta as histórias de meu avô. Lembrar delas me ajuda a reviver as agradáveis sensações que dividíamos. Agora sou eu que, vez ou outra, me pego murmurando "já morreu, também" quando falo dele.

2 comentários:

  1. Que bonito!
    E é exatamente isso... Com o tempo, somos nós que passaremos a usar cada vez mais essa expressão.

    ResponderExcluir
  2. Bom texto. Até eu fiquei nostálgico éenem conheço seu avô. Heheh

    ResponderExcluir